terça-feira, 18 de junho de 2013

Trinta

     Outro dia, li em algum lugar, que aos 25 anos o ser humano começa a perder água da pele. Daí, o porque da pele, da parte de cima da mão, ficar fininha. Coisa de velho. Já estou quase paranoico de tanto olhar para minha mão. Depois li que aos 35 a pele tem menos elasticidade. Lascou tudo! Com 50, derrete, só pode. Nesse mesmo texto diz que aos 30 anos perdemos em média 50 mil células cerebrais por dia. Sem brincadeira nenhuma, estou muito preocupado com isso. Quem foi que falou que eu estou em condição de perder alguma coisa. Ainda mais as células cerebrais. Agora imagina, 50 mil células por dia... quantas no ano? É claro que não vou fazer essa conta. Depois de uma idade, começamos a esquecer onde colocamos as chaves de casa, o nome de uma pessoa ou outra, datas comemorativas, mas nada que uma boa desculpa não resolva. Agora, conviver com esses números pavorosos que a ciência joga nas nossas fusas, é preocupante.
     Sei lá, talvez fosse o caso de começar a procurar um geriatra. Será que meus rins estão funcionando bem? E o meu coração? Meus pulmões...? Meu Deus, olhai por mim! Não permita que eu fique neurótico. Olha as minhas células, olha as minhas células! Pra que esses dados mesmo? Não basta ver os cabelos caídos na pia? Nada se perde tudo se transforma, tudo se transforma... Tenho medo da traição da minha visão, estou mesmo achando que devo ir ao oftalmologista. E se o meu paladar não for mais o mesmo? É a gota. É o fim! Meu reservatório de células está baixando. Depois dos trinta, não vou mais contar anos. Alias, parei de contar aos 25. Conto apenas vitórias.
     Aos trinta, perder peso fica mais difícil e perder cabelo fica mais fácil. Triste sina. Você não é maduro o suficiente para se passar por adulto, nem suficientemente jovem para voltar a ser criança. Essa coisa de "tio" é o fim do mundo. Falar gírias, para uma pessoas de trinta é ridículo, e, se fala corretamente, é taxado como metido e quer saber tudo. Se já é casado, fez besteira, tanta coisa para aproveitar na vida. Se ainda não casou, tem alguma coisa errada.
     Caramba ... Trinta! 30! 10+10+10, 20+10, 15+15 ... Rir ou chorar? Tudo isso faz a gente pensar na vida. Tirando a história das células... São caminhos que a gente trilha. Só isso. Talvez uma das melhores fases da vida. Seguimos com as dificuldades, alegrias, tristezas, vitórias e derrotas, mas seguimos. Putz, quanta coisa já aconteceu. Tantos sonhos. Algumas questões da vida mais claras e compreensíveis Outras nem tanto. Não é para qualquer vinte e poucos não. Trinta é descobrir-se no tempo. Antes era espaço, agora é tempo. É mais objetividade. Hora de fazer valer a pena. É a idade de saber mais sobre os limites das coisas. Maturidade. Instintos pulsando. Será que fazer trinta anos é mais serio do que eu pensava? Não, não é. É simples e extraordinário, assim, tudo junto.
     Não vou ficar na neura. Acho que amadureci da melhor forma possível, não esqueci de ter um coração de criança. Minha cabeça continua curiosa como a de um guri. Nessa idade, já sabemos que um tempo de nós se passou. Nos tornamos dilema. Tenho bem menos amigos do que imaginava, mas o que importa, é o quanto eu consigo ser amigo de alguém. Não me preocupo mais em me exibir como pedra preciosa, não me cabe valores. Aos trinta passamos de quantidade a qualidade, de reta à curva, de loucura à prudência, de pressa à paciência, de impulso a sabedoria. Trinta é o primeiro grande estágio da vida. É um começo bom.
     Trinta é um tempo que fica guardado, esquecido, adormecido no peito e de repente rebenta-se, explode, desperta ... e o coração, embora que cansado, desprovido de motivação, ganha nova roupagem, suspira. Tudo fica mais simples e sincero. Tudo virá combustível. É amar-se! Agora sim, entendo o que disse o poeta: "é fogo que arde sem se ver... é um andar solitário entre a gente". Trinta!


Eli Negreiros

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