quinta-feira, 4 de abril de 2013

Guri do buchão

     Caminhar descalço, sentir o chão nos pés. Pisar em espinhos e gritar como se tivesse pisado numa cama de pregos. Sentir a areia passar entre os dedos. Olhar sem malícia, correr de olhos fechados. Andar para trás, sem virar a cabeça. Dá uma crise de riso até doer a barriga. Gargalhar alto. Forçar o riso. Jogar bola na rua, brincar de bete, queimada, golzinho... Chegar suado em casa e tentar tapear a mãe para não banhar. Ligar o chuveiro, molhar o cabelo o rosto e sair como se tivesse banhado, eita lasqueira.
     Entrar no quintal dos vizinhos para pegar manga e goiaba. Cantar bem alto no chuveiro. Gritar no travesseiro, fazer guerra com ele. Brincar de lutinha com os irmãos. Depois brigar com eles, por que a brincadeira foi levada a serio. Tomar água bem gelada para doer a cabeça. Inventar cenas de ficção na cachola. Não entender como nascem os nenéns. Desenhar figuras nos cadernos da escola. Tentar melhorar a letra. Olhar para as meninas com ingenuidade. Morder e assoprar ao mesmo tempo. Correr com duas latas de leite nos pés. Pique esconde, pique alto, pique pega, bandeirinha, bola de gude, bola de meia, bola dente de leite, adedonha, pular corda, ciranda cirandinha, o circo pegou fogo, dois passarinhos, fui no tororó, fitas, sou pobre de marré marré, polícia e ladrão, pião, pipa, plantar bananeiras, gangorra, cabo de guerra, carrinhos feitos de lata com rodas de havaianas, amarelinha... Fugir do bedel da escola. Chorar escondido no quarto por causa de uma paixãozinha. Comer danone fazendo os dedos de colher, sem se preocupar com os germes. Manga com sal. Tomar remédio para vermes. Biotônico Fontoura com Emulção Scott, aquele remédio do peixe. Tomar água de coco. A mãe da gente nos pegando com aquela bucha na hora do banho, escova nos pés, e, a mistura de cócegas e dor.
     Pensar em fugir de casa quando levamos uma surra. Apanhar pelo erro dos irmãos. Ficar acanhado para tirar uma foto. Namorar sem a outra pessoa saber. Dançar sem música. Colar nas provas. Dançar quadrilha. Construir estradas com viadutos no quintal de casa. Subir em árvores. Fazer casinhas. planejar uma casa na árvore. Sair correndo da escola para assistir o Jaspion. Assistir Carrocel Mexicana. Ursinhos Gammy, He-man, Gargamel, Os Smurfs, Super amigos, Angelica e Xuxa, Pawer Rangers, Caverna do Dragão... Tocar a campainha e sair correndo. Passar trote do orelhão. Deitar na grama. Banhar na chuva escondido.   Arranhões no joelho. Ir para o rio, também escondido. Se apaixonar pela professora. Se apaixonar pela irmã do amigo. Se apaixonar pela amiga, e ficar vermelho quando alguém fala que vocês parecem um casal de namorados. Usar as roupas e calçados dos irmãos, e eles virarem uma fera e não poder fazer nada, por que você já esta usando mesmo.
     Pensar em ser médico, astronauta ou veterinário quando crescer. Decorar poemas nas festas da escola. Desfile de sete de setembro. Juntar dinheiro para comprar doces. Álbuns de figurinhas de desenhos animados. Reclamar por que vai lavar a louça. Sempre eu! Limpar o quintal. Não querer pegar as sujeiras do cachorro. Colocar sempre a culpa no irmão e vice versa. Dever de casa. Conjugar verbos. Decorar a tabuada. Band-aid. Salgadinhos, pipoca doce. Sessão da Tarde. Quebra queixo. Dinheiro pro lanche. Lanche do colégio. Correr atrás das galinhas para o almoço. Assistir o Chaves e o Chapolin Colorado. Caçar calangos. Pegar Umbu. Passarinhar. Balhadeiras e capangas. Apongar em carroças. Missa das dez. Roubar melancia na roça alheia. Andar na areia quente, descalço. Medo do dentista. Brincar com um pneu de bicicleta. Cuscuz. Tampinha de garrafa com os personagens da Disney. Zé gotinha. Ficar de cabeça para baixo, pendurado num galho. Plantar bananeira. Atiçar os cães para a briga. Fingir que tá dormindo, só para ser carregado para a cama...
     Tudo isso é história construída à base da mais pura felicidade. Nossos tempos de criança. São esses os momentos mais verdadeiros de toda a nossa vida. Inocentes. Onde bastava pouco para ser feliz. Haviam brigas, mas eram rapidamente esquecidas e perdoadas. O dia seguinte era sempre muito esperado. Pouca responsabilidade e uma obrigação enorme de sorrir, ser feliz. Se divertir era uma arte. Vivíamos tão intensamente que o tempo era apenas um detalhe.


Eli Negreiros