quinta-feira, 14 de abril de 2011

Grãozinho de Ouro

     Pedi a mim mesmo a permissão para escrever sobre um pedaço de mim. Hoje seriam vinte e dois anos de sorrisos. Jamais esquecerei essa data: 14 de abril. Celebrarei nela alegrias que jamais poderei descrever, não importa o tempo, essa data não morrerá em mim. Um Grãozinho de Ouro, que vale muito mais do que muita riqueza, viverá eternamente em mim, no meu coração. Quisera alguém arrancar esse tesouro que Deus me deu, mas não sabia esse amado de Jesus, que também levou parte de outras vidas. Agora viver se tornou mais difícil, o esforço vai além do que simplesmente respirar. Se pudesse voltar atrás e me fazer herói, entrar na frente, clamar misericórdia, morrer de uma vez... Aliás, morrer de uma vez deve ser bem mais fácil do que morrer em suaves prestações. Mas a vida continua com seus passos errantes. Ah! Se eu pudesse arrancar essa dor, essas lágrimas, esse coração faltando um pedaço eu faria isso.
     Queria ter mais vida para poder dividi-la com o Thiago – Grãozinho de ouro. Não sei se existe uma dor maior do quê a que se sente quando se perde um filho. Antes dele morrer, tive a graça de repetir tudo o que eu sempre falei desde que o conheci, pedi perdão, perdoei e amei, amei muito. Mesmo na dor, pude olhar nos olhos, colocá-lo no colo, tirar aqueles cravos e espinhas persistentes, fazer um cafuné demorado... Aquele sorriso, as bênçãos, os beijos, as lágrimas de alegria... O momento de pai e filho. “Quando você vai voltar? Não vai não, fica aqui comigo”, dizia ele quando estava saindo daquele hospital. A minha vontade era de voltar e o envolve-lo em um demorado abraço.
     Perdi um filho. Não tenho mais aquele abraço, o sorriso, as tardes de vídeo game e pipoca doce. Passeios de bicicleta com o Robério, os segredos, as brincadeiras, as broncas... Não tenho mais. Guardo comigo inúmeras cartas onde ele pedia perdão, falava dos amores, revelava segredos que não tinha coragem de falar. Não tenho coragem de relê-las. Quando não tínhamos nada pra fazer ele simplesmente deitava no meu colo e me pedia que cantasse, sempre eram as mesmas músicas. No final delas ele falava que eu era o pai que ele sempre quis ter desde pequeno. E assim eu me sentia, na condição de pai, e ninguém me convencerá que não era. Mesmo com as falhas eu o guardei e guardarei sempre, se Deus nos construiu assim, não posso lutar contra. Aceito a minha condição de padrinho, de pequeno pai.
     A morte foi uma desculpa besta para me fazer sofrer. Não quero mais passar por isso, ter que morrer aos pedaços não é bom. Como eu desejei está no lugar dele. Como me senti incapaz quando o vi agonizando, quando tive que assinar alguns papeis e ouvi aquele médico falar da gravidade... Meu Deus como eu queria estar no lugar dele – Grãozinho de ouro. Ele me ensinou a ter paciência a tolerar os outros e principalmente a amar. O Thiago foi a minha escola de amor, inúmeras vezes me uni ao céu para pedir por ele. Fez-me entender o dom da intercessão. Conduziu-me a confissão e a comunhão com Cristo. Dessa forma me mostrou que o céu começa aqui. Sei o que é amizade, ter e ser amigo. Entendo também a frase de Santo Agostinho que diz, que “A amizade entre as pessoas torna-se querida pelo vínculo suave que une muitas almas numa só”. Eu amo os meus amigos, já tentei negar isso para mim mesmo, mas, não consigo. Desisti, não posso mais lutar, por mais que doa, eu os amo. E os momentos bons são sempre os primeiros a vir na memória. É nesses corações alheios eu imprimo o bem que existi em mim.
     Agora resta a saudade. A dor da saudade. A certeza que não poderei matá-la, não poderei sufocá-la em meu abraço. A gente só percebe que ama depois que descobre que cuida. O Thiago foi um recado ambulante de Deus, através dele Deus me falou muitas coisas. O tempo passa e a saudade fica. Aconselho que vivam a experiência do amor de verdade com aqueles que os cercam, o amor se concretizará e a superficialidade caíra por terra eternizando os laços. Depois disso as pessoas começam a fazer parte de nós, da nossa história. A saudade é um registro do amor, de pessoas que passeou nos caminhos de sua existência.
     O frio é belo mesmo sem as flores da primavera. E nesses momentos de dor crescemos e aprendemos. O sofrimento é uma oportunidade singular para avaliar e colocar as coisas no seu devido lugar. As explicações cessam quando o amor se torna abundante. É difícil sorrir, manter-se firme, mas tenho que superar e continuar a missão, mesmo incompleto. As coisas que me restam dele sobrevivem num lugar de minha alma que se chama saudade. O que valeu a pena está destinado a viver na eternidade. O tempo não pode apagar. Acho que Deus não se incomodaria se o chamássemos de “Deus de Retorno”, por que é isso que pedimos dele que as coisas que nos provocam saudades retornem a nós. Algumas não retornarão. Às vezes não dá vontade de chorar, dá vontade de voltar, sei que não posso, por isso, peço perdão por está sempre ocupado e não ter visto o tempo passar, isso me fez chorar muito. Nisso tudo vou sendo simples na busca da alegria. Continuo com a minha dor diária. Não esqueço um dia sequer. Sempre que me olho no espelho vejo que estou sem um pedaço de mim. Sem a minha parte mais sorridente, sem meu afilhado. O meu sangue se transforma em lágrimas e vou morrendo como todos os outros. Ainda vai doer um pouco, mas, tudo vai passar, no final só o amor permanece. Respiro melhor agora, olho-me com um olhar de despedida, e recomeço tudo de novo. Seria bem melhor comemorar essa data se ele estivesse conosco, mas não dá. Hoje, além das orações desejo o céu, a graça dos braços do verdadeiro Pai, o Senhor Nosso Deus, que o ama muito mais do que eu o amo. Um pedaço meu também se foi e é quando lembro que também moro nos corações dos amigos, que resolvo abrir as janelas da minha casa, permitindo que façam morada. Thiago, eu sinto falta da tua voz, de ti ouvir numa canção do teu olhar, do teu sorrir.
Parabéns meu filho. Eu te amo.