segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Alegria roubada


     

Dizem que a alegria é para ser compartilhada. Não dá para guardar pra si. Será mesmo? Tudo depende do outro. Às vezes roubamos, sem pudores, a alegria dos outros e de nós mesmo. Deixamos nossa velha experiência roubar nossa alegria de infância. É bem verdade que o tempo passa rápido, nos levando a exaustão. Mas, se fizéssemos o contrário, se roubássemos, agora, da nossa alegria de criança... A infância é uma maravilha. É um privilégio desfrutá-la. Quem não aproveita a alegria oferecida, com o tempo se torna parasita da alegria alheia.
     Somos roubados. Tiram nossa alegria. A vida muda num ritmo acelerado. Antes liam-se livros, escrevia-se diários e cartas... hoje não temos tempo. Nossa alma não encontra espaço para expor-se, temos pressa para tudo e deixamos de nos conhecer, deixamos de nos perceber. Vivemos numa época a jato. Se fosse possível rodaríamos os ponteiros das horas. É bem verdade que encontramos as pessoas mais facilmente, mas será de fato um encontro onde enriquecemos nossa humanidade? Não. Nunca estivemos mais ausentes do que agora.
     A pressa nos rouba o tempo e nos coloca em outras pressas.Contudo, nossa vida não depende de tempo. Depende da nossa atitude perante ao tempo e muita vontade de viver. A vida se torna vazia quando não se tem tempo para ser feliz. Temos tempo de folga, mas somos avarentos de folgas. Ser feliz leva um tempo. Quem não se dispõe a ser feliz, perde a sintonia com o outro e tudo fica mais descompassado, e, toda a facilidade de achar as pessoas torna-se vã, quando não acertamos o passo. Haveremos de inventar outras alegrias, outros laços. Recomeçamos, reencontramos novos ritmos, criamos novos passos, temos idéias... Porém, pouco adiantará se estivermos sozinhos. Não nascemos para a solidão, precisamos ser povoados de presenças. E essas presenças têm que acompanhar, no tempo e espaço, o mesmo desejo de alegria.
     A alegria anda de mãos dadas com a idiotice. Quando olhamos para alguém que tem um comportamento infantil, achamos tal pessoa idiota. Mas, quando olhamos para um criança que faz o mesmo, percebemos a felicidade, a simplicidade da alegria. As crianças têm tempo de sobra. Se queremos ser feliz para sempre, a nossa infância deve ser vivida até a morte. Se o que nos faz feliz não tiver ligação alguma com a criança que somos, então tem algo errado. Tem que ver isso aí, urgente. Fazer traquinagem, brincar de algo que não esteja ligado na tomada, banhar na chuva, contar uma piada besta, e rir dessa piada (que é o melhor), inventar histórias, gargalhar... tudo isso é ser idiota e nos faz muito feliz. Devemos desacelerar nosso crescimento.
     Muita gente perde tempo sendo adulto e triste, e não tem tempo para ser criança e feliz. Um dia Jesus disse: "Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos Céus é para aqueles que se lhes assemelham" (Mt 19-14). A partir de hoje, começo a imaginar o céu com a alma de criança. Nele, há muita gente brincando e encontrando a felicidade na simplicidade das coisas. Uma grande roda e vozes entoando cantigas da infância. Todo mundo pode ser meio bobo e nem por isso será vitima de bullying. Terá muitos doces e nenhum dentista. Respostas para todas as perguntas, descobrimento. Uma bola de meia... guerra de travesseiro antes de dormir... Sempre imaginamos um céu.
     Roubar a alegria não é o mesmo que roubar dinheiro. O material é por vezes e continuamente artificial. Num dia a gente sonha, noutro a gente acorda. Roubamo-nos. Crescemos, e assim, nos tornamos ladrões dos nossos sonhos e dos sonhos dos outros. Ser feliz é sonhar o céu, é ser autor da própria história e co-autor da história dos outros, ter dúvidas, insegurança, medo. É sentir-se possível mesmo na adversidade, na incompreensão. Ser feliz é ser humano. Quem rouba nossa alegria, rouba nossa humanidade. Tal atitude por vezes é irreversível, queria muito que devolvessem meus sonhos roubados, minhas alegrias afanadas, minha infância surrupiada, meu eu doado.


Eli Negreiros

Nenhum comentário:

Carta para o abandono

Intragável senhor,    Se soubesses como és desagradável me pouparia de sua companhia. Se ao menos soubesse evitá-lo... mas és um senh...